sexta-feira, 2 de outubro de 2015

TIPOS POPULARES DE QUIXADÁ(11):CANDINHO- A MAJESTADE DOS CHURROS NA TERRA DOS MONÓLITOS


<.>Os quixadaenses que cruzam as principais ruas da bela cidade se defrontam, todos os dias, com um alegre e simpático trabalhador das ruas. Quem não conhece o popularíssimo Candinho dos churros com seu ar de moço bom, cheiro de gente boa, jeito de bondade e, mesmo sabendo das dificuldades, está sempre confiante e feliz? É mais comum vê-lo na praça José de Barros, exatamente onde trafega um maior número de pessoas. Mas, o carismático vendedor está presente nas atividades da igreja, parques de diversões, festinhas de aniversário, próximo ao estádio de futebol da cidade. Vale ressaltar que Candinho é muito querido pelas crianças tratando-as com muita carinho e claro, pelas pessoas adultas. E os churros tem mesmo a cara e cheirinho de infância.  Mesmo sem revelar a quantidade de churros que é vendida, garante que o apurado lhe garante as suas necessidades diárias. Antes de se tornar a majestade dos churros na terra dos monólitos, trabalhou por 17 anos em um bar. Quando abandonou esta atividade, o irmão Cleber Ribeiro(hoje, cineasta consagrado) o presenteou com um carro de churros e assim, desde o ano de 2002,  trabalha por conta própria vendendo este tipo de doce, à base de farinha, trigo, água e açúcar. Tem o apoio dos pais Luis Viriato(seu Lolô) e da simpática Eronice. Os outros irmãos, Clóvis(Cóia), Carlos(Calila), Cristina e Cláudia sempre exaltam a leveza, a bondade de Luis Cândido Viriato Ribeiro, seu verdadeiro nome. Gosta de lembrar dos tempos de escoteiro, quando garoto,  pois aprendeu lições de fraternidade, lealdade, disciplina, dentre outros benefícios. Tem saudades dos colegas do escotismo e dos instrutores sargentos Moreira e Paulo. É profundo admirador de musculação e é grato ao professor Evandir que lhe repassou muitos conhecimentos sobre o tema. Já foi astro de teatro e trabalhou no filme "O Casamento" produzido pelo irmão famoso nos anos 80, desempenhando o papel de Romualdo, tio da noiva. Ao pesquisarmos este tipo popular quixadaense, deduzimos que o comércio ambulante gera oportunidades de emprego, possibilita a sociabilidade nos espaços públicos e se reflete até numa situação cultural pois, no desenvolvimento dessas atividades, a cidade ganha destaque especial. Candinho afirma que o melhor do seu trabalho é a liberdade, o encantamento de não ter patrão.  "Se eu não quiser trabalhar hoje, não vou mesmo!" afirma com autoridade e solta uma poética gargalhada. Também faz questão de afirmar que trabalhar na rua é uma terapia muito legal, pois rever amigos e surgem novas amizades. Lamenta apenas o fato da violência ter chegado as ruas da terra dos monólitos. Perguntado o motivo de não ter priorizado à escola responde com ar de professor: "A melhor Faculdade é a rua, a gente aprende de tudo!". Na cidade corre um boato de que os churros preparados pelo popular vendedor dá muita sorte no amor. Em especial nas festas juninas ou no período do natal, os churros são uma boa pedida para dar de presente a pessoa querida. O vendedor não confirma, mas existem jovens enamorados na cidade que garantem ter o amor aumentado de intensidade ao saborearem os que foram preparados no seu carrinho. Verdade ou não, o certo é que Candinho dos churros é uma pessoa feliz, que ama o trabalho, á família e os amigos. E, com certeza, é um dos tipos populares mais conhecido e querido na terra dos monólitos. E ninguém contesta: Ele é mesmo o rei dos churros na terra dos monólitos!

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

ADAILTON QUIXADÁ- ELE JÁ FOI O ROBERTO CARLOS QUIXADAENSE


Adailton já foi chamado de "O Roberto Carlos Quixadaense"


Adailton nos dias atuais se apresenta para os amigos
 <>No começo dos anos 70, 0 Colégio Municipal funcionava nas dependências do então Ginásio Waldemar Alcântara e lá um adolescente encantava alunos e professores ao cantar ,sem nenhum acompanhamento, nas festividades do ano. Com voz bonita e interpretação convincente foi convidado a se apresentar no programa "A Juventude se revela" que acontecia nos intervalos das matinês Do Comercial Clube e que era o grande atrativo para a juventude da terra dos monólitos, naquele momento. Zé Maria Libório, um dos apresentadores, chegou a afirmar que seria errado deixar um talento como o de Adailton fora da vida cultural da cidade. Mesmo já enfrentando um grande problema na visão, o jovem fez sua apresentação, obtendo nota máxima e conquistando o público. Na ocasião, interpretou a canção "Minha Madrinha" do saudoso cantor Paulo Sérgio. Desde então, passou a ser o principal convidado do programa e ganhando admiradores em toda a cidade. Mas para que a tão sonhada carreira de cantor pudesse decolar, se fazia necessário alguém que fizesse o papel de empresário. E foi   apareceu o agitador cultural,o já famoso Zé Pereira, que passou a cuidar da vida artística de Adailton Menezes(o nome artístico Adailton Quixadá só seria adotado a partir dos anos 90). Pereira cuidou logo de criar um fã clube e convidou jovens para acompanhar as apresentações do "Roberto Carlos quixadaense" como ficou conhecido, durante algum tempo. O fã clube se reunia, preparava faixas, providenciava fotos para distribuir com os admiradores e acompanhava o jovem astro em todas as apresentações. Foi Pereira o responsável pela apresentação de Adailton nos programas de auditório da televisão cearense como "Porque Hoje é Sábado", apresentado por Gonzaga Vasconcelos; "Show do Mercantil" com Augusto Borges e, tempos depois, nas concorridas atrações de Irapuan Lima. O esperto Pereira conseguia convencer o pessoal da televisão a abrir espaço para o novo ídolo quixadaense. Adailton, Pereira e outros quixadaenses, viajavam até Fortaleza em uma das "Kombis" do senhor José Matias. O inesquecível Carmélio era, neste tempo, motorista de táxi em Fortaleza e ,então, cuidava da locomoção dos quixadaenses que precisavam se deslocar na capital. O jovem intérprete também venceu um campeonato de música promovido pelo jornalista Félix e assim, continuou a se apresentar na capital cearense.  Naqueles poéticos anos 70, cantar na televisão era a consagração. E, quando do retorno a terra dos monólitos, uma multidão aguardava ansiosa a chegada do astro. E aí, desfile pela cidade nos carros(massa, na época!), Corcel, Fusca, Opala, Puma, Variante e na carroceria de uma pick-up, Adailton, acenando para as pessoas e, como não poderia deixar de ser, arranjando namoradas. Mas este tempo de sonho, de ilusões foi passando e começou a carreira profissional ao ser convidado pelo maestro Dudu Viana para integrar o já famoso grupo musical "Os Monólitos" em substituição ao Marcelo que iria começar a trabalhar em outro estado. Adailton participou da gravação do compacto de "Os Monólitos" e é o autor da bonita canção "Segue o Teu Caminho". Com o encerramento das atividades do famoso grupo, foi convidado a integrar a "Black Banda", porém, por apenas 3 meses. Formou então com Zé Raimundo, beto, Vandernilson e outros amigos o "Voo Livre" que teve duração de 9 anos e tendo se apresentado em muitas cidades nordestinas. Também integrou a "Banda Azul" que realizou carnavais memoráveis. Em meados dos anos 90, foi criado um trio que se tornaria muito popular na cidade, sendo requisitado para muitas apresentações e chegando a fazer sucesso até fora do estado. Foi o "EMOSON" que não sai da memória dos quixadaenses. Hoje, Adailton Quixadá canta só em algumas situações como em aniversários, casamentos e quando convidado por amigos músicos. É bastante grato a José Pereira, Dudu Viana e a todos os seus colegas incentivadores na carreira que tanto amou e ama. Lembra emocionado que os pais Antônio Gomes Saldanha(foi comerciante no velho mercado) e Maria Valdelice sempre o apoiaram. Recebeu o carinho dos irmãos Ademar, Adenilson, Aldízia, Arnaldo, Afonso e Aurilene. Num momento de saudade e também de descontração afirma (risos): "Já fui o Roberto Carlos Quixadaense!". Com certeza, Adailton Menezes Saldanha é um dos talentos musicais mais queridos da bela Quixadá. Somos todos seus fãs!
Nos primeiros momentos no grupo "Os Monólitos"





Era uma doce juventude

Adailton com o maestro Dudu Viana e amigos

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

<>ANTONIO PINHEIRO: A ALEGRIA E O AMOR EM PRIMEIRO LUGAR

Com o neto Iago e a filha Iraci


Ficar perto dos familiares era sua maior alegria
<> A Lanchonete Quixadá, localizada na praça José Linhares da Páscoa(antiga Dr. Revi) no centro da cidade  firmou-se como um destacado ponto comercial, especializado em lanches de todos os tipos e frequentado por pessoas de todas as idades. Este espaço também nos apresenta imorredouras lembranças de um homem que cumpriu, honrosamente, a missão que Deus lhe confiou na terra. Antônio Pinheiro foi exemplo de pai amoroso, amigo leal, esposo dedicado, sempre humilde mas, em especial, uma pessoa sempre alegre, dividindo os bons momentos com os inúmeros amigos que possuía.  As pessoas da cidade e que vinham da zona rural ali se dirigiam não apenas para o lanche mas para escutar as histórias e estórias contadas de um jeito muito especial por Antônio Pinheiro de Oliveira. Gabava-se de ter começado a trabalhar muito cedo, por volta dos 12 anos. Com os olhos em festa, lembrava que subia muitas serras para ir a um samba(naqueles anos o forró era chamado assim). Risos e muita alegria ao contar das namoradas que arranjou no sítio Merejo e em outros locais de Doutor Severiano(município que foi distrito de São Miguel, RN), onde nasceu em 17.12.1920. A escritora e neta de Antônio,Glícia Rodrigues Pinheiro, conta no livro publicado sobre o avô que ele era um símbolo da alegria conquistando amigos por onde passou. O irmão Expedito, proprietário das lojas Leblon, foi o responsável pela sua vinda para a terra dos monólitos nos primeiros anos da década de 60 do século passado. Como veio disposto a trabalhar e bancar o estudo dos filhos, logo conquistou seu lugar no comércio quixadaense. Passando a administrar a Lanchonete Quixadá transformou-a num dos espaços de maior movimento da bela cidade. Ao lado dos filhos Alberto e Edival fez da lanchonete um local quase sagrado pois gente vindo de todo lugar ali lanchava e sem esquecer que o proprietário também era uma atração pela alegria sempre presente, fosse a qualquer hora do dia. Exemplo desta saudade é o que nos revelou o aposentado Antônio José, frequentador do local. Segundo ele, ia lá todos os dias para ouvir as coisas engraçadas contadas pelo amigo Antônio. Ele foi um símbolo de uma vida feliz, fez questão de enfatizar. Quando esteve internado em Fortaleza, a forma como encarou o tratamento, emocionou a todos, pois o sorriso jamais deixou de estar presente e o brilho nos olhos mostrava o grande amor que sentia por todos.  Aos profissionais da medicina e a família se expressou desta forma: "Meu sofrimento não é nada comparado ao de Jesus". Naqueles dias no hospital, a lembrança de filhos e netos estava sempre em seu doce coração. Devotava grande carinho aos netos e ao segurar as suas mãozinhas afirmava que elas eram pequenininhas, mas muito poderosas para lhe dar carinho e força no enfrentamento de momentos difíceis da vida. Antônio sempre foi muito grato a um jovem conhecido como Baixinho que lhe fez companhia nos momentos cruciais. Este moço contava com a confiança de toda a família e queria um imenso bem aquele amigo que em certos momentos parecia exercer a função de um pai. Segundo Iraci, a filha mais jovem, o pai sempre procurou fazer o melhor pelos filhos e netos acompanhando nosso  crescimento, vigiando nossas necessidades. Ele pedia sempre a Deus para iluminar nossas escolhas, nossas decisões e sempre teve uma preocupação com o nosso estudo mesmo não tendo a oportunidade de se dedicar as letras. Os filhos Gracinha, o médico Francisco Pinheiro, Alberto, Edival e Iraci sempre acompanharam ,com muita preocupação a saúde de Antônio  Pinheiro pois sabiam que ele era o norte da família com suas orientações, às vezes ,de forma contundente mas, sempre a apontar o melhor caminho a seguir. Sempre falava com muita saudade do primeiro filho, o Manoel Dantas, falecido  com 20 e poucos anos. Enaltecia a virtude de todos, filhos e netos, vibrando com as conquistas e os consolando nas perdas. Antônio sofreu muito com a morte de sua querida Socorro, ocorrida no ano de 1996. Eles se casaram em 17.02.1954, união que durou exatos 42 anos. Fortalecido com a fé que sempre esteve presente e o conforto oriundo de filhos e netos conseguiu prosseguir na sua estrada, mas sem jamais esquecer do seu anjo da guarda. Lembrava, às vezes acompanhado de uma bela gargalhada, ser muito namorador na juventude, participando dos forrós e gabando-se ser um pé de ouro, mas terminando com tudo isso pois  casar com uma mulher extraordinária, tal qual aquela, foi um grande privilégio dado pelo criador. Apesar dos esforços de médicos e da grande dedicação de toda a família, o querido Antônio Pinheiro foi chamado por Deus para outras missões em 07.08.2007. Deixou entre familiares e amigos uma imorredoura saudade e a imagem de uma pessoa alegre e que sempre amou a todos até seu coração deixar de pulsar. Nós, teus amigos e  família, jamais te esqueceremos!


Com o irmão Expedito


Na comemoração dos 80 anos sempre cercado do carinho da família


Festa pelos 80 anos

Para Antônio, a fé tinha um significado todo especial

Alegria em família

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

DEDÉ PRETO: NUMA VIDA SIMPLES, O MODELO DE UM MOTORISTA EXEMPLAR DEDICADO À FAMÍLIA E AOS AMIGOS


Dedé Preto-doce coração de um taxista amigo
                         <>Os motoristas são os grandes responsáveis pelo transporte das riquezas de uma nação, exercendo sua atividade, tanto nas grandes metrópoles como nas pequenas cidades. Por transportar também pessoas, torna-se uma figura bastante próxima das famílias, nascendo daí uma grande interação. Além de motoristas são chamados de "chofer", "do guidom', "professor do volante e nos levam, dia e noite, aos nossos destinos.Na terra dos monólitos, um desses profissionais se destacou não só pela seriedade como exercia a profissão mas, especialmente, pela forma diferenciada como tratava os passageiros, logo conquistando a amizade de todos. José Marques da Silva, o queridíssimo Dedé Preto, ganhou um carinho, todo especial, tratando a todos com humildade e o que é isto senão uma flor plantada por Deus no jardim do coração dessas pessoas privilegiadas? Durante muitos anos, desempenhou com profissionalismo e um carisma muito especial a profissão de motorista. Quantas vezes, ligando o rádio do carro,  ouvindo alguma canção, Dedé lembrou que em casa estavam lhe esperando sua querida Maura(com certeza, com um terço sempre na mão)  e os filhos a quem tanto amava. Por instante, um olhar rápido nas imagens de São Cristovão e São Francisco seguido de um sinal da cruz, de forma rápida,  pedindo mãos firmes, olhar vigilante e apelo para que o carro, instrumento de seu ganha pão, nunca prejudique a vida de qualquer pessoa. Na cabine estava escrito "Esta é a cabine da Saudade'. Das bonitas recordações deixadas por Dedé Preto, uma tem  grande significado, exatamente o fato de sua preocupação com seus colegas de volante. Um senhor, conhecido por Fitita, tinha chegado a terra dos monólitos, vindo de paus dos Ferros(RN) e desempregado pediu uma ajuda ao querido motorista. Dedé, com aquele coração de menino, lhe ofereceu seu carro, lhe dando o dinheiro das corridas, enquanto exercia outras atividades. Sabemos que o bondoso homem também enveredou pelos caminhos da atividade comercial tendo arrendado, por algum tempo, o restaurante Itajubá, administrou posto de gasolina e alugou o velho abrigo para os "meninos" tomarem de conta. Este gosto pelo trabalho foi absorvido pelos ensinamentos dos pais Elpídio Irineu e Firmina Marques, valendo destacar que, já aos 10 anos,guiava animais que puxavam cultivadores, na fazenda São João de propriedade de Dr. Thomaz Pompeu. Mas, foi, como motorista, desde os tempos do trabalho no Curtume Belém até abraçar a profissão de taxista, no ano de 1977, que se tornou conhecido e querido pelas pessoas. Todos que conviviam com ele sempre exaltavam sua maneira afável no trato  e uma alegria sempre contagiante. Às vezes, por alguns momentos, percebia-se uma certa tristeza no olhar e perguntado o motivo, saía-se com essa explicação: "Há tantos casais sem o pão sobre à mesa para alimentarem seus filhos e isso me entristece'. Mostrou sua grandeza de caráter ao continuar como taxista, mesmo quando seus filhos galgaram espaços no mundo empresarial e da política. Dedé preto nos deixou em 17.12.2002, legando a seus filhos(Carlos Alberto, Nascimento, Gerardo, Zé Mauro, Maura, Hilário e Marcos) e netos, grandes exemplos de caráter, dignidade, amor à família e ao trabalho. Aos amigos deixou uma grande saudade só confortada pelas lembranças daquele  homem sempre sorridente e pronto a servir. Dedé Preto nunca iniciou uma viagem sem pronunciar, em voz bastante baixa, essas palavras: "Jesus seja a luz de meus olhos!"

-Imagens: cortesia da família



Dedé e Maura-amor sem limites

Estar com a família era sua maior alegria

Dedé estava sempre perto dos amigos

Uma juventude cheia de sonhos

Dedé achava lindo o açude do cedro

amor à vida, à família e aos amigos



segunda-feira, 10 de agosto de 2015

EU TAMBÉM SOU UM REI DO LIXO

A luta com dignidade sempre presente
                                           Se meus amigos me encontrarem em um dos pontos de lixo da cidade, não precisam ficar admirados ou emitindo qualquer juízo. Imploro que não pensem que estou biró(doido). Não e não! Não é em busca do ganha pão, a exemplo de bravos catadores que buscam sua sobrevivência de uma forma honesta e sem ter ainda recebido do poder público e ,também de nós, à devida atenção e respeito. Os meus pais amados, Amadeu e Itamar, me deixaram o suficiente para as três refeiçoes e bancar outras coisas. Bem, vou contar esta história para vocês. Tudo começou há uns dez anos atrás. Estava eu numa dessas caminhadas, de toda manhã, quando, uma linda senhora(nunca a vi, não a conheço) desceu do seu carrão(massa!) e falou sem querer falar: "O senhor quer o Jorge prá você? Sai prá lá, violão!!! Reagi. Essa chique madame não me conhece e já vem com esse papo. Não é o que o senhor está pensando! É que fiz uma reforma no meu apartamento e priorizei a concepção espacial(diabéisso?) e esse tal de Jorge Amado ocupa muito espaço.  Mas senhora, Jorge Amado? Isso é lixo cultural dispensável que vocês pobres(ah condenada!) têm mania de gostar. Aí pensei com meus botões: quantas coisas raras são descartadas por essa gente, meu pai celestial! Aí fiz amizades com muitos catadores e acertei com eles que pagaria o que eles encontrassem  deste tipo de material. Minha casa continua do mesmo jeito, mas dar gosto receber visitas, em especial de jovens, em buscas de jóias, verdadeiras pérolas encontradas no lixo. O meu colega de tempos de Colégio do Padre, o Paulinho da Dida, quase pira quando lhe mostrei o disco "Acabou Chorare" de 1972 e me falou que era uma referência em pluralidade musical. Me ofereceu uma boa grana e quase eu caía nessa devido o estratosférico valor da minha atual conta de luz. Mas, o velho e teimoso coração falou bem mais alto. Já estAVA pensando nos caras trepados no poste cortando a minha luz, mas não vendi. Nessas horas, recorro a Santa Edvirgens e até hoje, nunca me faltou. Certa vez, um professor universitário queria levar, de qualquer jeito, o álbum "clube da Esquina", de 1972, gravado por Milton e Lô Borges. Não cedi porque adoro a capa deste disco, aquelas duas crianças sentadas numa estradinha me emocionam muito. "Chega de Saudade" encontrei num camburão de lixo, perto da rodoviária, em Fortaleza.  Confesso não entender muito  a música de João Gilberto mas sei do valor imenso deste vinil. Digo a vocês que veio um casal do Crato, no ano passado, comprar, por qualquer preço, este disco. Falaram que faz parte da história deles. Para acalmá-los copiei um "cd" com as canções originais e eles saíram felizes e ganhei de presente um jantar num desses modernos hotéis da linda Quixadá. Incrível! Apareceu um professor(acreditem, professor!) perto do hospital do exército, na minha amada capital, falando que odiava Machado de Assis e lançou no muro várias obras do bruxo do Cosme(por que ele me odeia, talvez o gênio perguntou em algum lugar do espaço mas, certamente, entendendo as reações humanas, no que era craque). Ora, peguei tudo e adentrei no "Circular" e desci na rodoviária. Estava de bem com meus astros pois, apareceu o velho amigo Aírton do Choró e me deu aquela carona. O meu colega catador(também sou) Daniel do Monte Alegre, um amigo especial, encontrou e me repassou um achado inusitado: um volumoso álbum contendo muitos santinhos de pessoas que partiram desta para a melhor(ou pior?). Este material é de grande utilidade para se contar um pouco da história de muitos quixadaenses que se chamam saudade. Numa certa manha, apareceu um senhor e, com muita raiva, jogou no lixo várias imagens de Nossa Senhora. Fiquei a pensar, que mal ela lhe teria feito. Dela, ouvi dos meus pais e muitos amigos, tratar-se de uma mãe amorosa, grande mulher da história. Os alfarrabistas(caras que vendem livros usados) sempre me procuram com o objetivo de comprar esses tesouros sempre recebendo um sonoro "não". Esses senhores falam que eu não levarei nada mas, argumento que muitos jovens utilizam meu material. Depois, quando falecer, finar-se, bater a biela, à caçoleta, as botas ou sei lá o quê, podem vender tudo. Agora, não senhor! Agradecendo a sua bondade e paciência por ter lido esta minha história, paro por aqui, lhes dizendo, amigos, que encontrei muitas coisas de valor nos lixões, mas nada comparável a dignidade presente, a riqueza da decência desta gente que busca no que é descartado pela riqueza e luxo,  condições para a sua sobrevivência. Lutam pela vida com honestidade e só lembrados em tempos de eleições sendo abraçados(abraço de verdadeiros Judas). Me envergonho, choro até, ao lembrar que, num passado já distante, os via como mendigos ou marginais. Mas, nunca é tarde para abrirmos mãos de nossos preconceitos. Hoje, me orgulho em dizer que também sou um deles! Eu também sou um rei do lixo! Não sei se mereço tanto, amigos!
-Imagens retiradas da Internet









quinta-feira, 6 de agosto de 2015

ANANIAS DOS PORCOS-NUM MODO DE VIDA DIFERENCIADO MOSTROU TODO SEU AMOR PELOS ANIMAIS

Ananias dos porcos-um grande amor à causa animal

Ananias e Maria de Deus-30 anos de um grande amor
<>"Tá na hora da ração minha  Rainha!;  Vamos tomar a vacina Faixa Branca!";  É hora do banho Brigite!". Era desta forma bem carinhosa que Ananias dos porcos, um dos tipos populares mais conhecidos da terra dos monólitos tratava os seus suínos, na verdade,  animais de estimação e que recebiam cuidados básicos e, é claro, muito carinho. Só chegou a vender alguns pelo fato de sua criação ter atingido mais de duzentos animais e ademais, a cidade crescia a passos largos, muitas residências foram surgindo e tornou-se quase impossível a presença de pocilgas na zona urbana. Chamava a atenção os cuidados que Ananias dos porcos dispensava aos animais. Nos seus chiqueiros improvisava telhados, pois um veterinário falou que eles poderiam sofrer queimaduras. Aqueles que têm mais idade lembram que era seu costume colocar um rádio com um volume nas alturas para, segundo ele, evitar que ficassem estressados. Dizia, mas só para os mais próximos que os porcos só gostavam de ouvir Luiz Gonzaga. Sua paixão pelos porcos era(e é) tão exagerada que chegou a levar seus suínos para as festas de São Francisco e afirmava que ele era o protetor dos animais. Mas, atendendo  apelos dos padres, deixou de fazê-lo. Cuidava com bastante zelo de todos os suínos, mas tinha um carinho toda especial com um que recebeu o nome de Rainha. Jurava, por todos os santos deste mundo(e do outro também) que era um animal inteligente, além de muito amigo. Ainda hoje, lembra com lágrimas nos olhos,  o dia em que Rainha foi atropelada por um trator. Hoje, aos 86 anos, Ananias Antônio de Oliveira, seu verdadeiro nome apenas lembra com muita saudade de Rainha e de todos os outros suínos. O amor pelos animais vem desde os tempos de infância em Capistrano, onde nasceu e aprendeu com os pais Vigorvino e dona Antônia Alves. Este pacato cidadão veio jovem para Quixadá, na década de 50, do século passado, em busca de trabalho. Assim que as densas nuvens de vapor saíam da chaminé da Maria Fumaça e cobriam a estação de Quixadá, anunciando a sua chegada, o jovem Ananias, logo ao descer, foi pedir emprego. E nem andou muito, pois próxima a estação ferroviária se localizava a padaria do senhor Cisne que o empregou na hora. Não demorou e logo conquistou a confiança dos patrões e sendo bastante querido pelos colegas de trabalho, ganhando a amizade do senhor Kléber Carneiro, filho do proprietário. Com o dinheiro que ganhava e, sem dizer a ninguém, ia comprando alguns suínos. Ananias já tinha experiencia no trabalho em padarias, pois aos dez anos, era operário do senhor Julio de Freitas, na sua cidade natal. Depois de alguns anos, passou a trabalhar na famosa padaria do João Pires, de quem se tornou um grande amigo. Paralelo a este trabalho, começou a montar suas pocilgas e cada dinheiro recebido, reservava uma parte para comprar seus tão queridos porcos. Todos sabem que João Pires criava um casal de leões e Ananias morria de medo que os mesmos fugissem e fossem devorar sua tão amada criação. Imaginava o rei das selvas devorando a sua Rainha. Lembra que seus colegas de trabalho riam muito disto. Hoje, Ananias já não cria mais porcos e sua única lembrança é um retrato de Rainha já amarelado pelo tempo em uma velha moldura presente na estante de sua casa. Sempre falou não conseguir entender o fato de algumas pessoas acharem estranho o seu amor pelos animais. Afirma em tom emocionado que eles são nossos irmãos de criação. Há mais de 30 anos, Ananias tem a companhia de Maria de Deus que sempre está ao seu lado em todos os momentos. Quixadá é realmente pródiga em tipos populares e suas histórias precisam ser perpetuadas. Essas pessoas com uma forma toda especial de viver à vida, na realidade, são cidadãos de bem e que se dedicam, de uma forma toda especial, à família e ao trabalho, sendo, portanto, cidadãos na expressão da palavra. Essas situações que acontecem na vida de muitas pessoas, na verdade, são provas reais de um grande amor pelas pessoas e pelos animais. Por toda esta dedicação a causa animal, Ananias dos porcos conquistou seu lugar na galeria dos grandes defensores dos mesmos, fato reconhecido por todos que o conhecem de perto e por aqueles que ouviram falar de sua doação aos nossos irmãos de criação, exatamente como ele sempre fala. Ao agradecer pela sua atenção, me despedi, mas sem antes ver uma velha fotografia de sua Rainha e um pedido: "Sempre lembre na sua coluna na "Revista Central" que os animais são criaturas de Deus! Tá certo, amigo Ananias!



Maria de Deus e Ananias dos porcos-anos 70
A porca Rainha era sua maior amiga



terça-feira, 4 de agosto de 2015

ABRAÃO BAQUIT- O INDUSTRIAL AMIGO DOS OPERÁRIOS

<><>Á tardinha, na bela e silenciosa Quixadá, os pássaros dão os último gorjeios e procuram os ramos dos galhos para dormirem. Os chorosos sinos da igreja velha convocam os fiéis para rezarem a oração da Ave Maria. Depois, a praça se enfeitava de gente para a explosão de alegria nas quermesses. A professora Baviera  Carvalho e as irmãs do colégio cuidavam do enfeite das barracas. Melodias invadiam o espaço, como se viessem do céu, mas na verdade, eram tocadas no serviço de alto falantes de mestre Adolfo e dona Luiza. Jovens gastavam a mocidade e, algumas vezes, eram repreendidos pela vigilância do Padre Luiz, sempre atento ao seu rebanho. Assim, fotografamos o maravilhoso Quixadá do anos 40, 50. Na porta de uma das fábricas "Gradvol", o seu proprietário conversa ,animadamente, com os operários que terminaram mais um dia de trabalho. Pouco tempo depois, a prosa se resumia apenas ao vigia e aquele industrial. Quem era esse cidadão  que galgou uma posição privilegiada no contexto industrial, mas jamais se afastou da convivência com os mais simples? Ele não nasceu na terra dos monólitos mas, segundo o memorialista João Eudes Costa, ele foi um quixadaense que nasceu no Oriente, tamanho era o seu amor pela terra e pela gente da linda cidade. Na verdade, Abraão Baquit nasceu em Habab, Síria, em 10.01.1893, filho de Kall Baquit e Zana Baquit. Ao chegar ao Brasil, no ano de 1924, foi residir no Piauí mas, no ano seguinte veio para Quixadá. aqui se estabelecendo definitivamente. Tudo começou com uma modestíssima loja de tecidos que, devido ao esforço e o tratamento afetivo dispensado a todos, logo se tornaria um local preferido de compras por parte das famílias. Em meados dos ano 40, quando a pacata cidade era administrada pelo farmacêutico Eliezer Forte Magalhães, Abraão Baquit adquiriu uma fábrica de beneficiamento de algodão ao Sr. Gradvol, onde mostrou  sua grande vocação para o trabalho, ganhando o respeito de todo o seguimento industrial, inclusive fora dos limites de Quixadá. Paralela à sua atividade ,como industrial, participou ativamente do cotidiano da cidade que amava muito, sempre visando o bem estar das pessoas e o seu crescimento. Antes de vir ao Brasil, morou alguns anos nos Estados Unidos e voltando a sua terra natal, casou-se em Damasco com a senhora Rosa Baquit, com quem teve 7 filhos: Alberto, José, Aziz, Maria, Albertina, Giselda e Adalberto(falecido, ainda criança, em 1940). Naturalizou-se brasileiro, sempre falando das riquezas de nosso país, mas destacando, sempre em primeiro lugar, a bondade de seu povo. O querido quixadaense(como exigia que o tratassem) pelo grande amor e carinho que o ligava a cidade, nos deixou em 15.06.1969. Um dos seus último pedidos foi que o sepultassem na terra dos monólitos. Ao seu sepultamento, além da presença da família e de colegas do setor industrial, muitas pessoas das classes mais humildes, foram dar seu último adeus aquele homem, em meio à lágrimas da saudade de um amigo muito querido e de um homem que personificou o valor do trabalho, o caráter, a bondade e a simplicidade. Qualidades absorvidas, é bem verdade, pelos filhos e netos. 
Foto: Cortesia de Angela Borges
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